UNI-DUNI-TÊ


A certeza de uma escolha pode passar pelo desafio da dor, pela caminhada no lamaçal, pelo contato com seus instintos mais profanos. Mas como é boa a liberdade na verdade, como é bom o olhar transparente - mesmo depois de lágrimas. Por vezes, precisamos ir ao inferno, para entender o que é céu. São as dualidades para a compreensão do todo. Impreterivelmente dois fatores interferem nesta decisão: a maturidade que traz segurança, e o autoconhecimento que traz 100% de responsabilidade por aquilo que cocriamos em nossa vida. Só assim, sem julgar o outro ou a situação, enfrentamos nossas sombras e prosseguimos gratos pelas tempestades, lúcidos e sem interferir na felicidade alheia. Assim podemos escolher.
A escolha implica em definição de caminho - às vezes é necessário um desvio, se é! -  comprometimento com o coração, abandono do medo, das aventuras sem finalidade, da futilidade, dos encantamentos, de tudo que é vazio e over. Fácil é destruir, difícil é construir com profundidade, entrega e lealdade. Adoro escolhas, elas causam danos, dores, raiva, ataques, revoluções...e também causam alegrias, arrebatamentos, risos, comemorações. Escolher é incluir e excluir. A dor ou a alegria? Pergunte ao escolhido ou se preferir, ao preterido. O fato é que a ordem se estabelece depois do caos. Amadurecimento. E a criançada, sem saber de nada, continua na parlenda:

Salamê min guê
Sorvete colorido
O escolhido foi
Você!

Até a próxima, querido leitor!


Felicidade...

Viva, viva feliz, me diz o biscoitinho da sorte que acabo de abrir... “Viva feliz”. E aí começo a pensar sobre essa possibilidade dos monges budistas... Começo a pensar sobre esse suposto estado de êxtase desejado por todos e impossível de alcançar. Deus, sim, Deus... Até ele não é feliz o tempo todo! Ele é infeliz quando vê a vida que levamos, quando vê o amor que recusamos dar e, por consequência, receber, quando vê as escolhas que fazemos e sofremos e não entendemos por que sofremos! Ora, se nem Ele é feliz o tempo todo, por que eu, sim, eu, deveria ser?
Gosto de ser feliz, mas também gosto da infelicidade. Esta me faz ser feliz mais adiante quando entendo, quando transmuto, quando me torno madura, absurdamente madura com meu aprendizado. Sou de uma vontade terrena de crescer. Não, não é do espírito porque não é suave. É densa, é forte, é determinante. É yang. Eu quero. Felicidade é transitar pelo erro, caminhar pelo absurdo, vagar na dúvida e no desencontro. Não há crescimento sem extremos opostos, sem congruência transitória.
Ser feliz é condição de ser infeliz. De viver a dúvida. De viver o medo. De viver a raiva. De viver a santidade. Ser feliz é condição de ousar. De morrer. De renascer. De quebrar protocolos. De romper com crenças. 

Sim, viverei feliz, querido biscoitinho da sorte! Eu e (quem sabe?) todos viveremos felizes, nos nossos encontros e desencontros com a felicidade e a – rejeitada, mas necessária – infelicidade.

Até a próxima, querido leitor!

INACABADA

Inacabada. Sim, estou inacabada! Não termino tudo que há em mim. Inacabado são os meus sonhos, os meus amores – por mim! –, os meus pensamentos, o meu eu.

Como eu sei disso? Simples. Todo dia quero, todo dia desejo, todo dia pergunto, todo dia sonho, e definitivamente não consigo acabar com tudo que me vem. Não, mas eu não acho isso ruim, não. Pelo contrário. Imagine se todos os dias tivéssemos que acabar com tudo. Ai, que chatice! Quem disse que tudo tem que ter começo, meio e fim? Sei que tudo começa, mas se vai ter meio e fim, bem, aí é outra história que pode ter outro começo. Tantas vezes os começos são complexos, são cansativos e damos logo um fim pra eles, sem meio! De outras vezes os meios emperram, incomodam e ficam sem fim. Ainda que isso não seja o fim.  E quando ele – o fim - acontece e nos parece tão distante daquilo que queríamos? Aaaaahhhhhhhhh!!!! Que droga! E deixamos o tempo passar, tentando um novo começo. Pronto, não nos acabamos, não nos encerramos. Temos mais motivos para começar do que para acabar, e sempre criaremos um meio de desejar. O inacabado é o movimento. Se houver fim, temo pela estagnação. E afinal, o que é começo, o que é meio e o que é fim? Santa dúvida, se afasta de mim! Inacabada, sem fim.

Arte de Carybé